Aves

INTRODUÇÃO

O estudo da anatomia de aves, apesar de desconsiderado e muitas vezes esquecido, é muito interessante e útil na profissão do Médico Veterinário. Compreende dois diferentes segmentos: um diz respeito ao controle e tratamento de doenças em criações comerciais e  outro que diz respeito à clínica de animais de companhia exóticos.  Também há um segmento, pouco discutido, que seria as reabilitações de aves selvagens que por algum motivo encontram-se feridas ou inaptas para a vida livre.

O frango será o animal – na maior parte das vezes – utilizado como base para esse resumo.

EVOLUÇÃO

As aves evoluíram dos répteis e guardam muitas características reptilianas: escamas nos bicos, pernas e pés, um único côndilo occipital, um único osso da orelha média (columela), completa construção da mandíbula e maxila, eritrócitos nucleados, um sistema porta renal e excreção de ácido úrico.

CARACTERÍSTICAS EXTERNAS E TEGUMENTO

A principal característica que distingue as aves dos mamíferos é a presença de penas. Suas funções são amplas e variadas: proteção contra choques mecânicos, radiação, temperatura agentes químicos e biológicos; aumento da eficiência no ar, deixando a ave mais leve; além da termorregulação e comunicação.

A pele é fina, frouxa, pouco vascularizada e inervada e solta-se com facilidade.

Crista, barbela e lobos da orelha (assim como o monco dos perus) são protuberâncias ornamentais macias da pele da cabeça. Sua derme é espessa e extremamente vascularizada, mas a epiderme que recobre é fina. São facilmente lesionadas e constituem porta de entrada para infecções.

O bico é a contraparte funcional dos lábios e dentes dos mamíferos. É derivado da pele e possui uma cobertura córnea chamado de estojo córneo. Tal estojo recebe o nome de rinoteca quando nos referimos à maxila e gnatoteca quando nos referirmos à mandíbula. O conjunto dessas duas estruturas é chamado de ranfoteca. A forma do bico varia conforme os hábitos alimentares.

As escamas nas pernas e pés são placas cornificadas similares às dos répteis. São estruturas que variam também conforme os hábitos alimentares.

Existem somente três glândulas na pele das aves: a glândula uropigiana (glândula do  óleo ou da limpeza), a glândula auricular e a glândula do vento (glândulas labiais externas do vento). A ausência de glândulas sudoríparas indicam que a perda de calor nas aves é principalmente através do sistema respiratório.

glândula uropigial

A glândula uropigial possui uma secreção oleosa (lipídica) que é direcionada para as penas do corpo e da asa durante a limpeza (asseio). Sua função, principalmente em aves aquáticas, é a impermeabilização das penas e o isolamento das partes submersas do corpo. Esse camada lipídica também forma uma proteção bacteriostática e pode explicar por que as aves apresentam pouca propensão a infecções de pele.

A glândula auricular está localizada  ao redor da orelha externa e secreta uma substância ceruminosa. As glândulas do vento secretam muco; a sua função ainda é desconhecida.

Penas

As penas são estruturas da epiderme altamente especializadas que evoluíram a partir das escamas dos répteis. Embora sejam leves com relação ao tamanho, as penas possuem uma construção reforçada.

Há basicamente 06 tipos de penas: penas de contorno, semiplumas, fitoplumas, plumas, plumas de pó (pulviplumas) e cerdas. (Mas somente estudaremos as penas de contorno e as plumas).

As penas de contorno (tectrizes) escondem as plumas, as quais criam um eficiente espaço morto aerado que isola o corpo. As penas das asas são chamadas de remiges. As penas da cauda (retrizes) estão fixas ao pigóstilo (que será explicado mais adiante nesse post) e são usadas para direção e frenagem durante o voo.

As partes que constituem uma pena de contorno estão ilustradas na figura abaixo.

figura3

O que diferencia as plumas das penas é a ausência de conexão das barbas, sendo assim não há a criação de uma estrutura fechada. Essa ausência confere a pluma um aspecto aveludado e macio.

A cor das penas tem um papel importante na camuflagem, cortejamento e proteção do calor e da luz. A coloração, produzida pelos pigmentos e pela difração da luz na estruturas das penas, pode complementar outras características da plumagem ou indicar o dimorfismo sexual.

Em determinados períodos, as aves fazem a troca das penas (muda ou ecdise) para descartar as penas desgastadas ou mudar a plumagem para exibição ou camuflagem. Usualmente isso ocorre uma vez por ano, após a estação de acasalamento (plumagem de inverno ou pós-nupcial), e é induzida pelo hormônio tireoidiano. Outros fatores que influenciam a muda são nutrição, época do ano,  temperatura e luminosidade. As aves jovens fazem muda de suas penas juvenis antes de atingirem a idade adulta e geralmente passam por uma série de plumagens subadultas.

SISTEMA MUSCULO-ESQUELÉTICO

O esqueleto das aves é altamente adaptado ao voo: é leve, compacto e forte, além de possuir maior quantidade de fosfato de cálcio do que a encontrada nos ossos dos mamíferos.

Uma característica peculiar é a pneumatização dos ossos por sacos aéreos, os quais são extensões dos pulmões. Os sacos aéreos são principalmente encontrados na cavidade corporal, onde se misturam com as vísceras; contudo, os sacos estendem divertículos através dos forames pneumáticos de ossos vizinhos, o que faz com que boa parte do esqueleto seja preenchida por ar. O processo é mais avançado nas melhores voadoras, as quais adquirem um esqueleto maior e mais forte sem ser concomitantemente pesado.

Crânio

As características mais evidentes do crânio são as grandes órbitas. Os olhos enormes deslocaram ossos encontrados entre as órbitas na maioria dos crânios dos mamíferos e reduziram outros a uma placa mediana fina (septo interorbital).

O osso occipital envolve o forame magno. Um único côndilo occipital, imediatamente ventral ao forame, se articula com o atlas, formando uma articulação que permite uma maior amplitude de movimentos nas aves.

A parte facial do crânio é formada principalmente pelos ossos nasal e pré-maxilares que circundam a grande abertura nasal. A maxila abaixo da abertura nasal é pequena e conectada à articulação mandibular pelo longo e fino arco jugal, o  homólogo do arco zigomático nos mamíferos. A partição óssea entre as cavidades nasal e oral existe apenas rostralmente, onde são formadas pelos processos palatinos dos pré-maxilares.

Esquelo Axial

Compreende estritamente coluna vertebral, costelas e esterno, mas a pelve pode ser incluída por estar firmemente fixada ao sinsacro, formado pela fusão das vértebras lombares, sacrais e caudal.

A divisão da coluna vertebral em regiões é dificultada pela extensiva fusão e localização incerta da junção entre os elementos cervicais e torácicos.

O número de vértebras cervicais varia com o comprimento do pescoço. Aves pequenas podem ter somente oito, enquanto os cines possuem até 25. O atlas é um pequeno anel que se articula por uma depressão em seu arco ventral com o único côndilo do occipital. Caudalmente, esse arco possui uma face articular para o dente do áxis. Exceto pela presença do dente e do curto processo articular cranial, o áxis difere pouco das demais vértebras cervicais, que são uniformemente cilíndricas e possuem processos articulares proeminentes e costelas (cervicais) rudimentares.

O número de vértebras varia de três a 10. Muitas espécies, incluindo frangos, aves de rapina e pombos, possuem as primeiras três ou cinco vértebras torácicas fundidas em um único osso, chamado de notário, que fornece suporte rígido. Este é seguido pela única vértebra  torácica livre, também a única vértebra móvel do tronco.

A última ou as duas últimas vértebras torácicas se fundem com as vértebras lombares, sacrais e a primeira vertebral caudal para formar o sinsacro.

O sinsacro e o notário tornam a parte dorsal do tronco bem rígida; essa rigidez é estendida lateral e caudalmente pela fusão do sinsacro com os ossos longos do quadril. O sinsacro é seguido por cinco ou seis vértebras caudais livres que permitem o movimento da cauda.

O segmento mais caudal (pigóstilo) é composto por vários rudimentos fusionados e confere sustentação às penas de voo da cauda.

Como nos mamíferos, a pelve óssea é composta pelos ossos coxais direito e esquerdo e pelo osso (sin) sacro. Os ossos coxais nas aves não se encontram em uma sínfise ventral; a larga abertura favorece a passagem dos ovos. Isso não ocorre em avestruzes nem em emas, os quais possuem uma sínfise púbica que pode ser uma adaptação para sustentar a pesada massa de vísceras.

Cinco ou seis pares de costelas conectam o esterno às vértebras torácicas. Cada costela completa consiste em uma parte dorsal (vertebral) e uma ventral (esternal) que se unem em uma articulação cartilaginosa. A maioria das costelas vertebrais apresenta um processo (uncinado) dirigido caudo-dorsalmente  que se sobrepõe à costela seguinte. Esses processos fornecem inserção a músculos e ligamentos e reforçam a parede torácica.

O esterno é um osso grande e não segmentado que, em conjunto com seus processos, forma uma parte considerável da parede corporal ventral. Provê fixação aos grandes músculos do voo. Em bons voadores, possui uma quilha proeminente (carina). Em outras espécies, uma quilha mais baixa é compensada pela profundidade do esterno. Nas grandes ratitas (avestruzes e emas), a quilha está ausente.

Esqueleto Apendicular

O esqueleto apendicular é bastante modificado pela conversão dos membros torácicos em asas e pelos membros pélvicos assumirem toda a responsabilidade da locomoção em terra, empoleiramento e absorção do impacto do pouso.

Membro Torácico

A escápula é uma haste chata localizada lateral e paralelamente à coluna vertebral e se estende caudalmente até a pelve. Está unida ao esqueleto axial por músculos e ligamentos, enquanto cranialmente está conectada à clavícula e ao coracoide; forma com este último a superfície articular que recebe a cabeça do úmero (articulação do ombro).

O forte osso coracoide se estende a partir da articulação do ombro para estabelecer uma articulação com a extremidade cranial do esterno.

As clavículas esquerda e direita se unem para formar a fúrcula (osso da sorte) . A fúrcula conecta as articulações do ombro omo se fossem uma mola e auxilia a manter o cíngulo contra o esqueleto axial.

Um forame (canal triósseo) na junção da escápula, coracoide, e clavícula, conduz o tendão de um dos músculos de voo.

O robusto úmero é achatado em abas as extremidades.

A ulna é mais espessa e mais longa do que o rádio.

A fileira proximal dos ossos do carpo é reduzida por fusão a apenas dois ossos separados (osso radical e ulnar do carpo); a fileira mais distal se fusionou ao metacarpo.

Os músculos peitorais que movem as asas são bem desenvolvidos e em algumas espécies representam até 20% do peso corporal. Sua contração produz o poderoso batimento de asas.

O pequeno músculo supracoracóideo localiza-se dorsalmente ao músculo peitoral. Também é um músculo de voo, porém é mais utilizado no momento de alçar voo.

O propatágio é uma dobra triangular de pele, que se estende do ombro ao carpo e forma a margem condutora da asa. Com as penas, é essencial para produzir uma elevação aerodinâmica.

Há três formas utilizadas para incapacitar a ave de voar. A primeira é o corte das penas somente de um lado das aves; esse procedimento irá causar uma instabilidade aerodinâmica, não causa dor no animal porém é uma técnica temporária, com a muda de penas a ave estará apta novamente  a voar. A segunda maneira é o corte do propatágio, que apesar de ser uma prega de pele e a pele ser pouco vascularizados, requer maiores cuidados, pois pode causar dores e sangramentos; essa técnica é definitiva. A terceira e última opção é a secção do tendão do extensor radial do carpo, uma técnica cirúrgica que somente pode ser feita por um Médico Veterinário, além de ser uma técnica definitiva.

Membro Pélvico

Em sua forma geral, o fêmur se assemelha ao dos mamíferos. É palpável na extremidade proximal e pode ser usado para a coleta de medula óssea.

A tíbia se funde com os elementos do tarso, formando o tibiotarso, que é mais longo que o fêmur e possui a diáfise da pouco desenvolvida fíbula em sua face lateral.

Os membros distais do tarso se fundem com os ossos metatársicos para formar o tarsometatarso. O tarsometatarso se estende até o solo e origina quatro dígitos, embora a fórmula das falanges possa variar entra as espécies.

Os músculos vermelhos e brancos são claramente distintos em aves. Os músculos vermelhos contêm maiores quantidades de mioglobina, são mais vascularizados e possuem mais mitocôndrias e glóbulos lipídico em suas fibras. Usam preferencialmente gordura e glicogênio (carboidratos) como fonte de energia. Como as gorduras produzem mais energia do que os carboidratos por unidade peso, os músculos que contêm maior predominância de fibras vermelhas são mais adaptados ao esforço prolongado. Os músculos brancos são mais potente. mas têm menos resistência. Os músculos peitorais das aves com grande capacidade de voo são vermelhos, enquanto os de perus e frangos são brancos, refletindo a preferência dos galináceos por correr.

SISTEMA DIGESTIVO

O sistema digestivo das aves exibe uma variação interespécies menor do que a dos mamíferos.

Orofaringe

As aves não têm palato mole e nenhuma constrição evidente separando a boca da faringe. A orofaringe denota, então, a cavidade combinada que vai do bico até o esôfago.

O palato apresenta uma longa fissura mediana que se conecta a cavidade nasal chamada de coana.

Uma fissura menor, mais caudal, constitui a abertura comum das tubas auditivas. Essa fissura chama-se fissura infundibular.

A parede da orofaringe é preenchida por numerosas papilas mecânica , tanto dispersas individualmente quanto organizadas em linhas transversais; são dirigidas caudalmente e auxiliam no movimento do bolo alimentar em direção ao esôfago.

Quantidades generosas de saliva, descarregadas através de aberturas dificilmente visíveis de  vários conjuntos de glândulas salivares, umedecem o alimento.

A língua triangular é sustentada por um aparelho hioide delicado e não é protraível. Os patos e gansos possuem uma língua guarnecida por papilas que se encaixam frouxamente em sulcos nas margens do bico, o que lhes confere a habilidade de peneirar partículas de alimentos vindas da água. Em algumas espécies de aves, a língua é ativamente usada para coletar, manipular e engolir o alimento. Os psitacídeos são os únicos que possuem um par de ossos entoglossos e apresentam língua grande e muscular capaz de grandes destrezas.

As aves parece não ter desenvolvimento acentuado do sentido gustativo.

A glote das aves só é formada pelas cartilagens aracnóides e pela cricóide.

Esôfago

O esôfago se localiza primeiramente entre a traqueia e os músculos cervicais, mas logo se desvia para a direita, uma posição mantida por todo o comprimento do pescoço, embora  tanto o esôfago quanto a traqueia sejam bastante móveis.

Na entrada do tórax, a parede ventral do esôfago se expande para formar o papo, uma protuberância do lado direito. A função do papo é amolecer a comida e armazená-la em um período breve de tempo.

O esôfago é capaz de grande distensão; sua lâmina própria contém glândulas mucosas, cujo muco lubrifica a passagem do bolo alimentar. Não existe quase nenhuma atividade química no esôfago e no papo, embora a amilase salivar possa iniciar a digestão de carboidratos.

Durante o período de chocagem, algumas espécies de aves elaboram em seu papo um material friável (leite de papo) que consiste em células epiteliais descamadas contendo lipídios, misturado com o alimento ingerido; o leite de papo é regurgitado e alimenta os filhotes nos primeiros dias de vida.

Estômago

O estômago das aves é dividido por uma constrição (istmo) em um proventrículo predominantemente glandular e um ventrículo predominantemente muscular (moela) localizados um atrás do outro e próximos ao plano mediano.

O proventrículo possui uma mucosa esbranquiçada, revestida por epitélio colunar secretor de muco, é claramente demarcada a partir do revestimento mais avermelhado do esôfago. Apresenta numerosas elevações macroscópicas (papilas) através das quais passam ductos coletores vindos de uma espessa camada de glândulas, muito visíveis à superfície de corte da parede.

O istmo é uma transição do estômago glandular para a moela muscular. Não possui glândulas na sua parede delgada e menos rígida.

O ventrículo ou moela é o local aonde ocorre a digestão física (quebra em partículas menores) do alimento. Também ocorre a digestão das proteínas. Possui uma camada (cutícula gástrica ou cutícula de coilina) que reveste, protegendo a moela das possíveis lesões que causariam a “trituração” do alimento; essa cutícula possui uma cor amarelo-esverdeada. Na moela de alguns animais, é muito comum encontrar areia ou pequeninas pedras que os animais ingerem, com intuito de auxiliar a trituração do alimento.

Intestinos

Consiste em duodeno, jejuno, íleo e cólon que se abre para a cloaca. Em aves herbívoras, existem ainda dois cecos que surgem da junção ileocólica e acompanham o íleo de maneira retrógrada.

Cloaca

A cloaca é comum aos sistemas digestórios e reprodutivo e se abre para o exterior pelo vento. Colonreto, ureteres e ductos deferentes (ou oviduto esquerdo) abrem-se na cloaca em diversos níveis. A cloaca é dividida sequencialmente em coprodeu, urodeu e proctodeu por  duas pregas anulares mais ou menos completas. A bolsa cloacal (de Fabrício) está localizada na parede dorsal do proctodeu.

O coprodeu é uma continuação ampuliforme do cólon-reto, na qual as fezes são estocadas. É limitado caudalmente pela prega coprourodeal. (O urodeu e o proctodeu são descritos com o sistema urogenital).

Fígado e Pâncreas

O fígado das aves é castanho-escuro (exceto nas duas primeiras semanas após a eclosão). Consiste em lobos direito e esquerdo, conectados cranialmente por uma ponte dorsal ao coração. Como não há diafragma, os lobos do fígado envolvem a parte caudal do coração. O lobo direito, maior, contém a vesícula biliar em sua superfície visceral e é penetrado pela veia cava caudal. Dois ductos biliares, um proeminente de cada lobo, adentram a extremidade distal do duodeno, próximo aos ductos pancreáticos; somente o ducto do lobo direito está conectado à vesícula biliar.

Baço

É uma esfera vermelho-acastanhada, localizada no plano mediano ao lado do proventrículo; faz contato com o fígado cranioventralmente.

SISTEMA RESPIRATÓRIO

Empregado pelas aves para a vocalização e termorregulação, além das trocas gasosas, o sistema respiratório difere consideravelmente daquele dos mamíferos. Em particular, os pulmões são pequenos, submetidos a pequenas mudanças de volume durante a respiração e expandidos pelos sacos aéreos, os quais não participam das trocas gasosas, mas agem como foles efetuando o fluxo de ar. A separação da ventilação e das trocas gasosas permite o fluxo contínuo de ar, ao contrário do “entra e sai” do fluxo aéreo dos mamíferos. Isso explica como as aves são capazes de extrair até 10 vezes mais oxigênio do ar do que fazem os mamíferos.

As diferenças no modo de respirar estão igualmente relacionadas à ausência  de diafragma muscular; seu lugar é ocupado por um septo horizontal passivo que meramente mantém as vísceras em seus lugares.

Diferenças de menor importância incluem a separação do órgão de vocalização (siringe) da laringe e a presença de anéis traqueais completos e possivelmente mineralizados.

Cavidade Nasal

As narinas estão localizadas na base do bico e suspensas por uma aba córnea (opérculo) ou recobertas por uma cera espessa, como nos psitacídeos. As narinas levam até a cavidade nasal, a qual é dividida, como nos mamíferos, pelo septo mediano em ampla comunicação com a orofaringe através da coana.

Laringe, Traqueia e Siringe

A Laringe ocupa uma elevação no assoalho da orofaringe. É suspensa pelas cartilagens cricoide e as pares aritenoides. Não existe pregas vocais; a produção de voz ocorre na siringe, uma especialização na bifurcação traqueal.

A traqueia, composta por anéis cartilaginosos completos e firmemente arranjados, acompanha o esôfago através do pescoço. A traqueia se bifurca em dois brônquios primários dorsalmente à base do coração.

A siringe é formada pela parte terminal da traqueia e primeiras partes dos brônquios primários. As cartilagens traqueais da siringe são robustas, mas as cartilagens bronquiais estão praticamente ausentes. O pato macho e o cisne possuem uma bula óssea (acredita-se que seja o ressonador) no lado esquerdo da siringe.

Pulmões

Os pulmões são relativamente pequenos, não lobados, de coloração rosa brilhante e não expansíveis. São levemente fixados à parede corporal e ao septo horizontal que os limita por baixo.

Não existe cavidade pleural correspondente à dos mamíferos, pois a capacidade de expansão dos pulmões das aves é insignificante.

Os sacos aéreos são cegos, têm paredes finas (duas células de espessura) e representam ampliações do sistema bronquial que se estendem além do pulmão numa relação muito próxima às vísceras torácicas e abdominais. Os divertículos de alguns sacos aéreos entram em vários ossos e até mesmo alcançam espaços intermusculares.

Os frangos possuem oito sacos aéreos: um cervical e um clavicular, únicos; e um par de sacos torácicos cranias, torácicos caudais e abdominais. Eles funcionam para criar um fluxo unidirecional de ar através dos pulmões, o qual é importante para maximizar a extração de oxigênio. Pela evaporação, também ajudam a reduzir a quantidade de calor produzida durante o voo e podem ter papéis subsidiários na produção de som, em demonstração de cortejo e possivelmente no resfriamento de testículos.

APARELHO UROGENITAL

Rins e Ureteres

Os rins são castanhos e alongados. Preenchem os recessos na superfície ventral dos ossos do quadril e localizam-se contra o sinsacro, praticamente alcançando o seu limite caudal; cranialmente, os rins estão em contato com os pulmões. Cada rim está arbitrariamente dividido em regiões cranial, média e caudal pelas artérias ilíaca externa e isquiática, ramificações da aorta abdominal. O córtex e a medula não são claramente demarcados e não existe pelve renal.

O ureter se origina da região cranial pela confluência de vários ramos primários e passa sobre a superfície medioventral do rim, recebendo ramos adicionais das regiões média e caudal. O ureter então continua caudalmente ao longo do ducto genital até o fim da parede dorsal  do urodeu.

Não há bexiga urinária, nem uretra.

 Vasos Sanguíneos nos rins

O rim é suprido por três artérias renais, uma para cada divisão ou região. A artéria cranial surge da aorta, enquanto as outras se originam da artéria isquiática.

As veias menores são satélites às artérias, mas as várias veias renais que deixam o órgão se unem à veia ilíaca comum e, por meio desta, à veia cava caudal. O sistema porta está sobreposto a este e compreende as veias porta cranial e caudal.

Uma grande parte do sangue que retorna do membro pélvico passa novamente pelo rim através do sistema porta renal. Essa característica é tida como uma evolução, pois partes de toxicinas que “entraram” no organismo pelo membro pélvico através de algum mecanismo (ferimentos, picadas etc) são rapidamente excretadas. Esse é um dos motivos que não é indicado a aplicação de injeções em membros pélvicos de aves.

Órgãos Reprodutivos Masculinos

Consistem em um par de testículos, epidídimos e ductos deferentes, e um único falo, que, e, algumas espécies incluindo frangos, patos e avestruzes, é o órgão copulatório. Os testículos permanecem em seus locais de origem; o funículo espermático, a túnica vaginal e o escroto estão, portanto, ausentes. Tampouco existem as glândulas reprodutivas (genitais) acessórias e uretra

Testículos

Os testículos possuem formato de feijão, são relativamente grandes e apresentam coloração esbranquiçada durante a estação de acasalamento; contudo, são reduzidos para cerca da metade do seu tamanho e mudam para uma coloração amarelada no período quiescente (durante a muda). Fixados  a um curto mesórquio, os testículos se localizam simetricamente próximos à extremidade cranial dos rins, logo caudal às adrenais, relacionados ventralmente aos sacos aéreos abdominais, proventriculo, fígado e intestinos.

A serosa recobre uma fina túnica albugínea a partir da qual um estroma comprimido é derivado; não existe mediastino testicular.

O epidídimo não é dividido em cabeça, corpo e causa, e aparece como uma discreta saliência nos testículos.

O ducto deferente, fortemente enovelado, tem origem na extremidade caudal do epidídimo e acompanha o ureter até a cloaca, onde se abre numa papila discreta na parede lateral do urodeu. O ducto apresenta um pequeno alargamento terminal (receptáculo).

Cloaca e Falo

O urodeu, caudal à prega coproudeal, é indistintamente demarcado do proctodeu por uma prega uroproctodeal rasa, ventralmente incompleta. O óstio do ureter se localiza na parede dorsolateral, sobre a papila do ducto deferente. Em fêmeas, a abertura alongada do oviduto ocupa posição semelhante no lado esquerdo.

O proctodeu, o segmento mais curto e mais caudal da cloaca, termina no vento. Uma pequena abertura na sua parede dorsal leva à bolsa cloacal (bolsa de Fabrício), um acúmulo de tecido linfático que é o local de diferenciação de linfócitos B. A bolsa de cloaca é então um órgão imunológico análogo ao timo.

O vento é uma fenda horizontal. O lábio ventral é de interesse, pois em frangos machos abriga o falo não protraível, o análogo do pênis dos mamíferos, na sua superfície interna. O falo consiste em um pequeno tubérculo mediano, flanqueado por um par de corpos fálicos laterais maiores. Durante a inseminação, o vento é evertido e o falo é pressionado contra a mucosa da cloaca da fêmea (“beijo cloacal”). O ganso e o pato têm um falo protraível, com alguns centímetros de comprimento e capaz de realizar a intromissão.

Órgãos Reprodutivos Femininos

Consistem em ovário e oviduto. Em geral somente os órgãos esquerdos são funcionais em aves; o conjunto direito é formado, mas logo após regride.

A gonada e os tratos tubulares, tanto em machos como em fêmeas, sofrem uma involução notável fora da estação de acasalamento.

Ovário

O ovário maduro se assemelha a um cacho de uvas de vários tamanhos que está amplamente fixado à divisão cranial do rim esquerdo. Contém vários milhares de folículos – bem mais que o número de ovos (cerca  de 1.500) que a mais produtiva das galinhas poedeiras poderia botar.

Cada um consiste em um oócito grande preenchido por vitelo e envolto por uma parede folicular vascularizada. Pouco antes da ovulação, uma faixa branca não vascularizada (estigma) aparece oposta ao pedúnculo, indicando que a parede vai se romper para ocorrer a ovulação. O folículo vazio (cálice) regride após a ovulação e desaparece em poucos dias.

Não há necessidade de um corpo lúteo, pois não existe a manutenção do embrião no corpo da ave

Oviduto

Não apenas conduz o ovo fertilizado até a cloaca, mas também adiciona uma quantidade substancial de nutrientes (incluindo a clara do ovo, ou albume); adicionalmente, envolvendo o ovo com membranas e a casca, fornece proteção para o embrião em desenvolvimento. Conduz espermatozoides ao ovo para imediata fertilização e pode estocá-los por um tempo para uso futuro (na galinham uma inseminação é suficiente para fertilizar os ovos liberados durante 10 dias ou mais).

O oviduto pode ser dividido em infundíbulo, magno, istmo, útero e vagina, de acordo com a função de suas partes.

A extremidade cranial é formada pelo infundíbulo que consiste nas partes estriadas e tubular. A parte estriada, de parede fina, é esticada para formar uma abertura estreita (óstio infundibular) com vários centímetros de cumprimento; sua extremidade lateral está fixada à parede corporal, próximo à última costela. O óstio está posicionado na altura do saco aéreo abdominal esquerdo, de modo que pode captar os oócitos recém-liberados. O oócito atravessa o infundíbulo em 15 minutos. A fertilização deve ocorrer antes de as glândulas infundibulares fornecerem o estrato chalazífero, uma fina cobertura de albume denso diretamente em volta da gema. Algumas espécies possuem uma glândula infundibular para reserva de espermatozoides (fóssula espermática).

O magno, amplamente enovelado, é o segmento mais longo do oviduto. Nesse segmento são adicionados ao ovo os elementos cálcio, sódio e magnésio. Um ovo leva cerca de três horas para atravessar essa parte.

O istmo é demarcado a partir do magno por uma zona glandular estreita e translúcida. O istmo é mais fino que o magno, possui pregas menos desenvolvidas na mucosa, secreta mais albume e também um material que rapidamente se espessa para formar as duas membranas homogêneas encontradas entre o albume e a casca. O ovo leva cerca de uma hora para atravessar o istmo. Uma câmara de paredes finas e ligeiramente alargada. Passando através de membranas permeáveis, um albume aquoso é acrescentado para dilatar o ovo. Essa secreção é então seguida pela deposição da casca e de seus pigmentos e da camada externa brilhante ou cuticula.

A parte final, a vagina é um tubo muscular em forma de S através do qual o ovo completo passa em segundos quando ocorre a postura. Quando o ovo é posto (extremidade romba primeiro), a abertura da vagina protrai através do vento, o que minimiza a contaminação pelas fezes.

CAVIDADE CORPORAL

Em aves não existe um diafragma para separar os órgãos torácicos dos abdominais. Contudo, a cavidade corporal é dividida em três partes pelos septos horizontal e oblíquo.

GLÂNDULAS ENDÓCRINAS

As glândulas tireoides estão localizadas na entrada do tórax, caudal ao papo e estreitamente relacionadas à artéria carótida comum, à traqueia , à veia jugular e ao nervo vago (que acompanha a veia) – de fato se localizam cranialmente à união desses vasos com os vasos subclávios.

As glândulas paratireoides, duas ou três de cada lado, são diminutas estruturas castanho-amareladas, localizadas imediatamente caudal à glândula tireoide à qual podem estar fixadas.

As ainda menores glândulas ultimobranquiais de coloração rósea, se localizam próximo às paratireoides.

As glândulas adrenais são castanho-amareladas, ovais ou triangulares. Cada uma se localiza no polo cranial do rim correspondente, relacionando-se com o ovário (ou epidídimo) ventralmente.

A hipófise (ou glândula pituitária) está fixada abaixo do diencéfalo e ocupa a fossa hipofisária na base do crânio.

SISTEMA CIRCULATÓRIO 

Coração

O coração das aves possui quatro câmaras e é muito semelhante ao coração dos mamíferos. Contudo, é relativamente maior e sua taxa de contração é muito mais rápida. Está fixado ao esterno pelo pericárdio fibroso.

O átrio direito recebe as veias craniais, pareadas, e uma única veia cava caudal. A valva atrioventricular direita é formada por uma única aba muscular sem cordas tendíneas.

As veias pulmonares se combinam para formar um tronco único antes de entrarem no átrio esquerdo.

Estruturas Linfáticas

Somente gansos e patos (dentre as aves domésticas) possuem tecido linfático encapsulado como um linfonodo verdadeiro. Entretanto, o tecido linfático está presente em todas as espécies; na sua maioria, existe como um agregado desorganizado de tecido linfoide.

Os vasos linfáticos são menos numerosos que nos mamíferos. Acompanham (e circundam) os vasos sanguíneos, são valvados e apresentam linfonodos microscópicos dispersos a intervalos em suas paredes. Conduzem a linfa para a entrada do tórax, onde é descarregada na veia cava cranial.

SISTEMA NERVOSO E ÓRGÃOS DOS SENTIDOS

Cérebro e Medula Espinal

O cérebro das aves é pequeno. O cerebelo é relativamente grande.

Uma peculiaridade da medula espinhal é um corpo gelatinoso rico em glicogênio na superfície dorsal da intumescência lombossacral.

Olho 

O bulbo do olho preenche quase totalmente a órbita, deixando pouco espaço para movimento; entretanto, o pescoço longo e a móvel articulação atlanto-occipital compensam isso.

A íris de frangos é amarelo-acastanhada, mas se torna levemente descorada durante o período de postura. Envolve uma pupila redonda, que pode mudar de tamanho rapidamente por meio da ação dos músculos estriados do esfíncter e dilatador. Mesmo assim, a íris das aves é surpreendentemente não responsiva à luz.

Orelha

Não existe aurícula; a orelha externa consiste somente no meato acústico externo, o qual se abre no lado da cabeça, abaixo de uma cobertura de pequenas penas. O meato é curto e reto, e a grande membrana timpânica é fácil de ser examinada (assim como também é facilmente lesionada). Um lobo, similar em estrutura à crista e à barbela, está presente ventral à abertura. Entre galinhas domésticas, a cor do lobo da orelha combina com a cor da casca dos ovos.

A orelha média se assemelha à dos mamíferos, exceto pela modificação dos ossículos.

A estrutura e as subdivisões da orelha interna seguem os mesmos padrões dos mamíferos.

ADAPTAÇÕES AO VOO

No seu caminho evolutivo, as aves adquiriram várias características essenciais que permitiram o voo ao animal e tornaram o corpo leve e aerodinâmico. Entre estas podemos citar:

1. Desenvolvimento das penas

2. Presença de quilha, expansão do osso esterno, na qual se prendem os músculos que movimentam as asas

3. Desenvolvimento de ossos pneumáticos

4. Perda,atrofia ou fusão de ossos e órgãos (exemplos: fúrcula, notário, sinsacro, pigóstilo, dentes, bexiga, ovário direito etc)

5. Desenvolvimento de um sistema de sacos aéreos

6. Postura de ovos